Go to the content
Colabore com a casa
or

 Go back to A arte de co...
Full screen Suggest an article

Como ter melhores conversas

April 23, 2016 14:17 , by Casa do Caminho - 22 comments | No one following this article yet.
Viewed 102 times

Por Jeanne Callegar [1]

 

Melhores_conversasEm tempos de ofensas sendo destiladas em toda parte, a chamada comunicação não violenta nos ensina a buscar nossa humanidade compartilhada, apesar das diferenças e a aprender a ouvir

Janeiro de 2016.  A tarifa do ônibus e do metrô aumenta em São Paulo, chegando a R$ 3,80, e as pessoas vão às ruas protestar. As manifestações são combatidas pela polícia militar, que lança bombas de gás e balas de borracha contra as pessoas, participantes ou não. Um jovem de 19 anos precisa fazer uma cirurgia, porque uma bomba rompeu um tendão de sua mão; outro foi atropelado por cinco motos e atirado ao chão.

Sexta-feira, 13 de novembro de 2015. Chegam as primeiras notícias dos atentados em Paris, em que mais de 100 pessoas foram assassinadas por membros do Estado Islâmico, organização jihadista baseada na Síria (...).

Julho de 2015. A jornalista Maria Júlia Coutinho, a Majú, que apresenta a previsão do tempo no Jornal Nacional, é alvo de comentários racistas no Facebook. “Não bebo café para não ter intimidade com preto”, diz um dos insultos.

Todos os dias, vemos relatos como esses nos noticiários dos jornais e nas redes sociais. Situações que mostram o quanto a humanidade pode ser agressiva, violenta, preconceituosa. Entre a indignação e a perplexidade, é fácil cair no desânimo, pensar que o ódio venceu. Afinal, ele não está presente apenas nos atos cometidos contra manifestantes ou nos atentados terroristas em outro continente. Não. O sentimento está em nossas conversas e relações, diariamente. Um dia é o político que afirma que “ninguém gosta de homossexual”; no outro, a discussão com o amigo do trabalho que tem uma posição política oposta à sua. Em uma semana, um índio é espancado até a morte nas ruas de uma capital; na outra, um debate infrutífero no almoço de domingo sobre a redução da maioridade penal. Um dia brigamos com o marido por causa da louça suja na pia; no outro, o filho bate a porta, chateado porque não conseguiu permissão para sair. As vozes se exaltam, as opiniões se polarizam. Tudo se torna um eu-contra-eles, uma partida de perde-perde, em que falhamos em conciliar posições, necessidades, ideias.

Quando nos deparamos com essas situações, reagimos como fomos ensinados. Se um motorista nos fecha na rua, brigamos. Se o filho desobedece, gritamos. (...) E assim seguimos, firmemente atados às nossas convicções, em um diálogo de surdos. Mas o que aconteceria se, em vez de reagir como normalmente fazemos, pudéssemos fazer diferente? Se, em vez de raiva, gritos e ironias pudéssemos exercitar a escuta, praticar empatia, tentar entender genuinamente o ponto de vista do outro? Será que não conseguiríamos resultados melhores?

 Conexão e linguagem

É essa a aposta da chamada comunicação não violenta, uma abordagem para lidar de forma mais compassiva com os relacionamentos humanos, das relações íntimas aos conflitos políticos globais mais complexos. Criada pelo psicólogo americano  Marshall Rosenberg, nos anos 1960, a comunicação não violenta nada mais é que uma forma de se comunicar que aumente a chance de conexão entre as pessoas.

Eu sei. Talvez você esteja meio cético ao ler isso. Talvez esteja pensando, ao ver essa expressão, que isso é uma coisa hippie, em que as pessoas se vestem de branco, dão as mãos e nada muda, de fato. Talvez ache que é sinônimo de passividade. Mas as formas tradicionais de resposta não são suficientes para dar conta dos conflitos que vivemos. É hora, talvez,  de tentar alguma outra coisa.

Aos 9 anos de idade, a família de Rosenberg mudou-se para Detroit, nos Estados Unidos. Pouco tempo depois, eclodiu na cidade um confronto racial no qual 40 pessoas foram mortas. No olho do furacão, Rosenberg e sua família passaram três dias trancados em casa. Essa e outras experiências levaram o garoto, quando cresceu, a se interessar pelas causas da violência e o que motiva as pessoas a praticá-la.

“Enquanto estudava os fatores que afetam nossa capacidade de nos mantermos compassivos, fiquei impressionado com o papel crucial da linguagem e do uso das palavras”, escreveu Rosenberg em Comunicação Não-Violenta: Técnicas Para Aprimorar Relacionamentos Pessoais e Profissionais (Ágora), livro-referência para quem quer se aprofundar no assunto. O psicólogo foi buscar na ahimsa – a não violência – de Gandhi os princípios para uma nova abordagem de comunicação. E Gandhi, como se sabe, não era nada passivo: por meio de protestos não violentos e desobediência civil, como greves, boicotes a produtos ingleses e marchas, ele conseguiu liderar o país rumo à independência.

A comunicação não violenta se baseia na ideia de que, quando falamos, estamos sempre expressando necessidades profundas, compartilhadas pelos outros. Toda pessoa, seja de direita ou esquerda, homem ou mulher, religioso ou ateu, tem necessidade de abrigo, segurança, alimento, amor. Também precisamos de reconhecimento, carinho, aceitação, pertencimento, intimidade, liberdade, entre muitas outras coisas. Não é fácil olhar para alguém que acaba de nos ofender e ver ali uma pessoa como nós, com necessidades semelhantes. Mas se queremos realmente causar mudanças, precisamos tentar.

“Respeito significa olhar de novo”, diz o especialista em CNV, Dominic Barter, inglês radicado no Rio de Janeiro, ao explicar a origem da palavra. “Re” significa que algo vai acontecer de novo; “spect” significa ver. “Em um primeiro contato com outra pessoa, a primeira coisa que notamos são nossas diferenças”, diz ele. “Notamos como a cor da pele é diferente, as roupas, as opiniões. Para ouvir respeitosamente, precisamos olhar outra vez, com mais cuidado, e procurar não aquilo que nos diferencia, mas o que nos une”, afirma ele, que há décadas ensina e aplica a comunicação não violenta em diversas regiões de conflito do globo, inclusive em presídios brasileiros e nas favelas cariocas.

Observar com neutralidade

“Para além das ideias do certo e errado, existe um campo. Eu me encontrarei com você lá”, escreveu o poeta sufi (13) Rumi. Quando nos damos esse tempo para perceber o outro, podemos ver as coisas com mais clareza, evitando os julgamentos de valor. Segundo a comunicação não violenta, é importante reconhecer a diferença entre observação e avaliação. Isso porque, quando julgamos a ação do outro, a tendência é que ele sinta aquilo como uma crítica. Ora, o ser humano não gosta de ser criticado; em vez de refletir sobre o que dissemos, sua tendência será se defender. E, assim, a comunicação se rompe.

As observações ditas ao outro devem ser específicas da situação, se referindo àquele ato, não à pessoa. “É diferente eu dizer ‘Aquele desgraçado acabou com a vida da família inteira’ e falar ‘Ao sair de casa e usar drogas, aquele homem provocou uma reação de tristeza e desesperança, segundo o relato dos familiares’”, exemplifica o psicólogo Frederico Mattos.

Fácil não é. Muitas vezes, embutimos um julgamento sem perceber. “Você SEMPRE esquece a luz acesa!” Pode parecer uma frase neutra, mas o “sempre” traz uma carga acusadora, que pode não corresponder à verdade. Dizer “Nas últimas quatro vezes em que reparei, você deixou as luzes acesas” é mais objetivo e tem mais chances de não ser recebido como crítica.

Depois dessa formulação, é hora de observar as emoções que essa situação causa em você. Tristeza? Raiva? Vergonha? Fazer isso é mais complicado do que parece. Afinal não fomos treinados para prestar atenção em nossas emoções; pelo contrário, ouvimos a vida toda que elas nos atrapalham. O psicanalista Rollo May afirma que uma pessoa madura é capaz de diferenciar as muitas nuances dos sentimentos. Algumas experiências são fortes e apaixonadas, outras, delicadas e sensíveis, tais quais os trechos de uma sinfonia. Para a maioria das pessoas, porém, ouvir os próprios sentimentos é como ouvir as notas de um clarim. Não temos vocabulário para expressar o que se passa conosco.

Quando colocamos nossos sentimentos na mesa, nos abrimos para o outro, deixamos que ele enxergue nossa vulnerabilidade. E isso pode ser transformador. Mesmo que o outro não verbalize, podemos tentar perceber, por trás de seus gritos e acusações, as suas verdadeiras emoções. A mãe que critica a filha pode estar apenas se sentindo sozinha. O filho que tira notas baixas pode estar tendo problemas na escola. O tio que pede a volta da ditadura pode estar expressando seu medo da violência. Somos como crianças que, com fome, frio ou sujas, reagem do único jeito que sabem: chorando.


A raiz dos sentimentos


Quando você descobre a emoção que sente quando algo acontece, tem pistas muito valiosas sobre aquilo que a causou. “Onde há fumaça, há fogo”, diz Barter. “Nossas emoções são um sinalizador de nossas necessidades humanas básicas: se elas estão sendo atendidas, nos sentimos bem, gratificados. Se estamos mal, ficamos apreensivos, com raiva”, diz ele.

Aqui também a comunicação não violenta propõe uma mudança na forma de encarar os problemas. Por essa abordagem, as ações dos outros podem ser um estímulo, mas não a causa de nossas frustrações. “As pessoas não são perturbadas pelas coisas, mas pelo modo como as veem”, disse o filósofo grego Epicteto. Digamos que seu namorado desmarque um compromisso de última hora. Se você está ansiosa por encontrá-lo, a sua sensação imediata poderá ser de raiva. Mas, se você teve um dia cansativo, talvez, receba a notícia com bastante alívio. Tudo depende, enfim, do que esperamos.

Claro que não é possível deixar de ter expectativas e valores. Isso é o que nos faz únicos afinal. Mas, quando pensamos que cada pessoa tem suas próprias de certo e errado, fica mais fácil entender que, no mundo delas, aquilo que nos parece tão abominável e injustificável pode ter sua razão de ser.(...) Nós não precisamos concordar com isso, mas podemos ao menos  entender de onde aquela atitude vem.

Quando percebemos isso, fica mais fácil não ser afetado por essas questões. Ao mesmo tempo, ganhamos força para dizer com todas as letras, de forma não violenta, por que aquele ato nos magoa. Ironicamente, quanto mais não acusadores somos na expressão de nossas necessidades, mais fácil é tê-las atendidas.

Pedir e se posicionar


            Entender o ponto de partida do outro não significa ser passivo. Nem, simplesmente, mostrar a outra face, e deixar que a violência ou abuso, se for o caso, persista. Na comunicação não violenta, todos os envolvidos – seja um casal em crise ou líderes de etnias em guerra – colocam suas emoções e necessidades na mesa, e isso tenta ser conciliado. Você pode fazer um pedido, por exemplo. “Filho, fico preocupado quando você sai e não dá notícias. Quero que você se divirta, mas será que você pode mandar uma mensagem para avisar que está bem?”

É importante formular o pedido diretamente, da forma mais clara possível. Prefira dizer o que quer, e não o que não quer. Em seu livro, Rosenberg conta a história de uma mulher que disse ao marido “Gostaria que você passasse menos tempo no trabalho”. Algum tempo depois, ele anunciou a ela que tinha se inscrito em um curso de golfe. Também vale lembrar que o pedido não pode ser uma exigência. Se a pessoa sentir que é uma cobrança, só tem duas alternativas: se submeter ou se rebelar. Nas duas, a pessoa que pede é vista como coercitiva, e isto diminui as chances de o pedido ser atendido. Como diferenciar as coisas?  Simples: na reação caso a pessoa decida não nos atender. Se o pedido não for atendido, continua-se a conversa até chegar a uma solução que agrade a todos.

“A empatia é a compreensão respeitosa do que os outros estão vivendo”, escreveu Rosenberg. Para isso, é fundamental esvaziar a mente e ouvir com todo o nosso ser. E isso é difícil: requer se despir de ideias preconcebidas, estar completamente disponível para entender as razões do outro. “A agressividade dos outros se alimenta de um temor de não ser visto, reconhecido, amado, considerado”, diz Mattos. “Ela é um pedido desesperado por atenção”.

Em geral, em vez de escutar, queremos logo dar conselhos, encorajar, contar histórias semelhantes. Antes disso, porém, é importante dar tempo para que a pessoa se expresse, dizendo tudo o que está entalado. Não tente apressar: apenas ouça. O foco deve ser sempre na mensagem do outro. Se alguém diz: “De que adianta conversar com você? Você não entende nada!”, não leve para o pessoal, nem se defenda. Pergunte: “Você está infeliz porque gostaria de ser escutado?” Repita para a pessoa o que você acredita ser a emoção ou necessidade dela. Ela poderá então confirmar e se sentir, assim, mais escutada.

Passamos a vida toda reagindo a conflitos de maneira não compassiva. Isso não vai mudar de uma hora para  outra. A comunicação não violenta é um músculo que precisa de exercício. Tentar analisar sem julgar, perceber nossas emoções e necessidades, tudo isso pode ser treinado. Ao tentar praticá-la, vá no seu tempo. Afinal, à medida que oferecemos empatia aos outros, devemos também fazê-lo por nós mesmos, tendo paciência por nossas ações, nossos processos. Aos poucos, iremos perceber o poder transformador de se comunicar com mais respeito. E aí quem sabe conseguiremos, se não entender de onde vem tanto ódio no mundo, ao menos contribuir para que em nossas relações as coisas possam ser um pouco diferentes.


[1] CALLEGARI, Jeanne. Como ter melhores conversas. Vida Simples, São Paulo, SP, ano 14, n. 3, p. 16-23, mar. 2016. Jeanne Callegari é escritora e jornalista. Foi editora-assistente de Vida Simples até 2014. Acredita no potencial do diálogo e da escuta. [Nota da editora, p.22].

[2] O sufismo é uma corrente mística do islamismo. Seus praticantes são chamados sufis. (Nota do site)


This article's tags: diálogos arte de viver cultura da paz convivência humana

1One comment

  • 38d49d572a5bf4e311210538cc4b34cf?only path=false&size=50&d=404Sandra Andrade(unauthenticated user)
    April 24, 2016 13:32

     

    Interessante! Precisamos aprender a exercitar a comunicação pacífica. A começar pela convivência em família. Acredito que essa prática pode mudar o mundo.


Post a comment

The fields are mandatory.

If you are a registered user, you can login and be automatically recognized.