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Como se estivesse em uma chapelaria

September 26, 2020 5:33 , by Redação CDC - 0no comments yet | No one following this article yet.
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Como se estivesse em uma chapelaria

            - Uósnei Moncorvo

 

Você já foi pego em algumas situações na vida, no momento de hiato, aquele suspense em que você não tem a menor ideia do que será em seguida? Não tem qualquer parâmetro para imaginar o que esperar?

Pode ser um diagnóstico médico inesperado, um revés financeiro, a morte de alguém importante e aparentemente fundamental. Uma catástrofe natural. 

Nós humanos temos a intrincada faculdade da cognição, associada a memória. Temos o repertório de recordações das emoções e sentimentos vivenciados em experiências anteriores boas ou ruins. Tendemos as conjecturas, alimentadas pela imaginação, quanto ao futuro. Esse conjunto, no momento dos eventos inesperados, trabalha intensamente, frequentemente de maneira infeliz,  contra nós. Há um largo espectro de tons para a emoção assumir, e muitas vezes tendemos aos mais desagradáveis.

Metaforicamente, é como se você entrasse em um grande evento, pela primeira vez na vida, e parasse na chapelaria, o guarda volumes. Você respira e pensa: Deveria ter ficado em casa. Para que eu vim a este lugar? O que é que eu estou fazendo aqui? O que me espera lá dentro? Como vai ser?

A viseira do pessimismo ergue-se diante dos olhos, já míopes. 

É exatamente dessa forma que as situações inevitáveis nas quais tropeçamos, como que por acaso, nos deixam. E digo como que por acaso, em razão de nada estar necessariamente ao acaso em nosso caminho. 

Não podemos falar de destino, ou de uma sucessão de eventos cronometrados para resultarem num desfecho específico. Isso seria amputar a inteligência e neutralizar a faculdade de livre escolha que são conquistas consolidadas gradativamente no âmago do ser. Por consequência, estaríamos nos isentando de responsabilidades (Ver A Gênese, cap. III, Instinto e Inteligência). 

Allan Kardec trata do assunto destino,  através da questão 851 de O Livro dos Espíritos, onde realiza considerações sobre fatalidade, a certeza dos acontecimentos predeterminados. Os espíritos respondem aos seus questionamentos afirmando que a única fatalidade se dá no planejamento realizado antes de retornar a vida. A intenção é o cumprimento das escolhas que constituíram o programa e são fornecidos recursos e ajuda para isso. Mas, uma vez nela, o exercício da livre escolha predomina.

Mas podemos falar, de uma planejamento arquitetônico para a construção de um arranha-céu, o edifício chamado existência atual. A planta foi desenhada pelas escolhas feitas nas vidas anteriores. Há linhas de base estrutural, um vigamento e colunas que suportarão os materiais posteriormente escolhidos para erguer as paredes e elevar a construção.

A estrada em que iremos transitar na vida é constituída por nossas escolhas. Sejam estas antigas, geradas em outras vidas, sejam estas recentes, produto da vida atual (O Evangelho Segundo o Espiritismo, Capítulo V, item 4). Além disso, a forma como lidamos com os resultados destas escolhas, também definirá o grau de sofrimento, desespero ou de superação, diante dos acontecimentos. 

A consciência de que podemos conquistar novas capacidades na adversidade, como nos ensina Léon Denis, pode nos auxiliar:

“A alma, depois de residir temporariamente no espaço, renasce na condição humana, trazendo consigo a herança, boa ou má, do seu passado; renasce criancinha, reaparece na cena terrestre para representar um novo ato do drama da sua vida, resgatar as dívidas que contraiu e conquistar novas capacidades que lhe hão de facilitar a ascensão, acelerar a marcha para a frente.” (O Problema do Ser, Do Destino e da Dor, segunda parte, cap. XIII)

Não é o ideal, optar por escapar das consequências destas escolhas, o que apenas agravaria o gerenciamento dos débitos, largamente demonstrado pela Doutrina Espírita.

Isso não nos isenta do turbilhão de sentimentos. A sensação de despreparo para atravessá-las. Embora queiramos, não conseguimos sequer ter ideia da forma como as coisas irão se desenrolar. Há uma mistura de incômodo, angústia, mesmo uma ponta distante de humano desespero.

Tudo isso porque representam dificuldades. Abandono da zona de conforto.

Vamos nos apropriar de outra metáfora, uma eficaz figura de linguagem para melhorar nossa compreensão: a passagem do metal através da forja. É antiquíssima a ideia de que sob elevadas temperaturas, se extrai o melhor das substâncias. A forja é depuradora dos metais, separa-os: valiosos, dos inúteis.

Certamente se você chegou até aqui, lendo um texto em um site espírita, tem algum grau de conhecimento e convicção mínima. Não lhe faltam valores, bases onde fundamentar sua fé. Ou se não possuía nada disso está em uma busca pessoal por configurá-los em seu íntimo.

O mais difícil é converter teoria em prática no momento em que surgem as situações difíceis. Para nossa reflexão, lancemos mão do Evangelho Segundo o Espiritismo: 

 O homem pode suavizar ou aumentar o amargor de suas provas, conforme o modo por que encare a vida terrena. Tanto mais sofre ele, quanto mais longa se lhe afigura a duração do sofrimento. Ora, aquele que a encara pelo prisma da vida espiritual apanha, num golpe de vista, a vida corpórea. Ele a vê como um ponto no infinito, compreende-lhe a certeza e reconhece que esse penoso momento terá presto passado. A certeza de um próximo futuro mais ditoso o sustenta e anima e, longe de se queixar, agradece ao Céu as dores que o fazem avançar.” Evangelho Segundo o Espiritismo, cap. 5, item 13.

Algumas sugestões, então, para os momentos de suspense que a vida nos impõe:

1 – Trabalhe sua perspectiva das coisas; construa com elementos concretos a compreensão dos fatos; a partir disso assimile a ideia de que antecipação não lhe leva a nada saudável;

2 – Aproprie-se da perspectiva temporal de ciclo; é uma etapa de sua existência, e irá passar;

3 – Alimente internamente apenas propostas úteis, não busque explicações desnecessárias, justificativas sem sentido. Basicamente viva com o que você tem agora;

4 – Sustente perspectivas honestas e saudáveis sobre o amanhã, exercitando fé e esperança;

5 – Cerque-se dos amparos possíveis, visíveis e invisíveis – oração, meditação, amigos encarnados e espirituais. Lembre-se: você não está sozinho! Mesmo que sinta solidão.

Sim, pode ser penoso converter teoria em prática no momento em que surgem as situações difíceis. Entretanto, é fundamental abrir espaço no coração para dizer a si mesmo: é possível! Desde que você esteja disposto a realizar e sustentar outras escolhas, em benefício de sua saúde mental e crescimento espiritual, atravessando as intempéries com mais serenidade e sabedoria.

 

 

921. Concebe-se que o homem será feliz na Terra, quando a Humanidade estiver transformada. Mas, enquanto isso não se verifica, poderá conseguir uma felicidade relativa?


“O homem é quase sempre o obreiro da sua própria infelicidade. Pela prática da lei de Deus, a muitos males pode forrar-se, proporcionando a si mesmo felicidade tão grande quanto o comporte a sua existência grosseira.”

*Aquele que se acha bem compenetrado de seu destino futuro não vê na vida corporal mais do que uma estação temporária, uma como parada momentânea numa hospedaria de má qualidade. Facilmente se consola de alguns aborrecimentos passageiros de uma viagem que o levará a tanto melhor posição, quanto melhor tenha cuidado dos preparativos para empreendê-la(...).

(O Livro dos Espíritos, Allan Kardec)


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