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E Kardec – o filme?

May 29, 2019 20:17 , by Redação CDC - 0no comments yet | No one following this article yet.
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E Kardec – o filme?

Uósnei Moncorvo, Comunidade Espírita Casa de Oração Luz

 

Não sei bem, em que se baseia a crítica de cinema, para opinar sobre um bom filme.

No dia seguinte à estreia, fui assistir Kardec, num cinema próximo de casa. Surpreendi-me um pouco com a sala praticamente vazia.

Passeando na internet pude ler diversas críticas negativas, sobre a dita superficialidade do filme: por exemplo, o excedente de tramas menores não desenvolvidas, mas retratadas, os elementos doutrinários do filme são fracos ou insignificantes, entre outras. Não irei me deter em nenhuma destas questões.

É fato que Wagner de Assis produziu uma película com outras características, bem diferente de Nosso Lar. Fato que Leonardo Medeiros (Kardec) e Sandra Corveloni (Amélie), não retratam uma paixão avassaladora, até porque não me aparenta ser esse o propósito do filme. Mas comovem com um romantismo suave e cheio de ingenuidade, gênero de amor praticamente perdido.

Também não se dedica o filme a ser um tratado de doutrinação.

Ainda assim, ressaltarei  o que o filme me fez sentir. E considero, que do ponto de vista de nosso propósito evolucionário neste planeta, na tentativa de superar instintos, nossa meta é desenvolver sentimentos.

A ambientação, a fotografia, os figurinos e cenários, remetem a uma França, onde compreendemos a inserção real da pobreza, e a extensão das dificuldades econômicas. O que um Leon Denis irá nos retratar um pouco mais adiante, depois de Kardec.

O cotidiano retratado do casal nos aproxima da percepção de Kardec, o educador,  nos processos institucionais e escolares, seu contato com a infância, assim como seu idealismo, apego as concepções próprias e  fibra moral.

Tendemos a retratar líderes religiosos de um ponto de vista heroico. Realizamos mesuras, e os colocamos no altar da santificação. Costumamos endeusá-los e removemos sua humanidade!

É de uma rara beleza, ver retratada a humanidade de Kardec. Bem à maneira dos arroubos apostólicos ou das lágrimas no Horto (Lucas 22:39-46).

Ver seu ceticismo, que acaba por impulsionar em muito seu rigor científico (há uma sequência retratando a verificação da presença de dispositivos sob a mesa). Notar seu deslumbramento, quando da obtenção de provas que apoiassem a autenticidade dos fenômenos, através mesmo de fragmentos do seu cotidiano residencial (afinal os espíritos “pululam em torno de nós”, A Revista Espírita, abril de 1859, 11, Edicel). Perceber seus medos, inseguranças, fragilidades diante da grandiosidade e do impacto do conhecimento que lhe surgia as mãos, das repercussões sociais da Doutrina dos Espíritos.

Também percebemos a cumplicidade amorosa, e a afetividade genuína, levemente romântica com uma proativa Amélie.

No livro Seara de Médiuns, Emmanuel tratando do momento de uma comunicação mediúnica considera: ‘Abraçando a mediunidade, muitos companheiros na Terra adotam a posição de absoluta expectativa, copiando a inércia dos manequins.’ (Seara de Médiuns, 137, FEB, 7ª edição, Ser Médium). O nobre benfeitor considera a nossa dificuldade de naturalizar o trato com os espíritos, e de reunir a vivência de sermos eles, mesmos apenas tendo um corpo momentaneamente utilizado por eles, como instrumento de comunicação.

Na película, nós conhecedores de gigantes mediúnicos como Divaldo Franco e Chico Xavier, nos aproximamos das fragilidades dos médiuns que contribuíram com o trabalho, o que também pode ser muito reconfortante. Perceber, mesmo naquela época, as tentações por assim dizer, da vaidade, da atenção à vida pessoal e amorosa, quando se constituem empecilhos para a tarefa mediúnica. E ainda, os desconfortos no traquejo com os espíritos. Tudo isso retratado em outros, no caso do filme, personagens, promovendo um processo de identificação.

No filme, trata-se de explorar outro campo da vivência e de aprendizado, com a imagem. De elaborar o discernimento através da criticidade. De perceber a visibilidade do espiritismo ampliada através de novos espaços. Trata-se de naturalizar a ideia da imortalidade e do trato com os espíritos – distanciando da visão do maravilhoso, do espetáculo, como era percebido inicialmente com as mesas girantes.

Ide, pois, e levai a palavra divina: aos grandes que a desprezarão, aos eruditos que exigirão provas, aos pequenos e simples que a aceitarão; porque, principalmente entre os mártires do trabalho, esta expiação terrena, encontrareis fervor e fé. Ide; estes receberão, com hinos de gratidão e louvores a Deus, a santa consolação que lhes levareis, e baixarão a fronte, rendendo-lhe graças pelas aflições que a Terra lhes destina.”(Erasto, Missão dos Espíritas, item 4, capítulo XX, Evangelho Segundo o Espiritismo)

De fato não estamos em frente a uma obra hollywoodiana e sim, de um retrato da vida, pintado com a paleta escolhida pelo artista que o compôs. Mas se a vida ainda é mais interessante e mais estimulante que as coisas armazenadas na nuvem, arrisque-se. Assista, analise. Permita-se estar entre os pequenos e simples: num bom programa, acompanhado dos amigos, da tradicional pipoca, e de um salutar material para preenchimento dos pensamentos.

Faça à maneira do codificador e examine o conteúdo desta comunicação!

 

 

Kardec estava cansado, ou melhor, exausto. Só os mais íntimos sabiam, mas, no início de 1865 , sofrera um acidente cardiovascular grave e ficara de cama por longos dias, acompanhado de perto por Amélie e por um médico invisível: o homeopata Antoine Demeure, morto aos 71 anos, em janeiro daquele ano. Os dois não se conheceram em vida mas se tornaram íntimos quando Demeure passou a se manifestar através dos médiuns da Sociedade Espírita. (...)

Logo após o distúrbio cardiovascular de Kardec, o médico enviou uma outra comunicação, em tom bem mais sóbrio e preocupado. Se ele, Demeure, não estivesse por perto quando a pressão de Kardec subiu e seu coração ameaçou parar, o codificador estaria tão “livre” quanto ele no além. Mas aquele não era o momento adequado para essa libertação.

-É preciso antes de partir, dar uma última demão às obras complementares da teoria doutrinal de que és o iniciador.

Kardec deveria se cuidar para concluir sua missão. Um descuido poderia ser punido pela espiritualidade com rigor, a julgar pelo alerta assinado por Demeure:

 

- Se, por excesso de trabalho, tu antecipares a partida para cá, serás passível da pena de suicídio involuntário.

Só depois de ler e reler essa mensagem, Kardec decidiu se recolher sob os cobertores de seu quarto e abandonar a leitura das cartas e dos livros recém-lançados que lotavam sua caixa postal. Uma pausa rápida antes de concluir sua nova obra.

(Do Livro: Kardec, Marcel Souto Maior)   

 

 


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