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ESPIRITISMO, REPARAÇÃO E PENA DE MORTE

August 9, 2021 0:06 , by Vicente Aguiar - 0no comments yet | No one following this article yet.
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ESPIRITISMO, REPARAÇÃO E PENA DE MORTE

 

ESPIRITISMO, REPARAÇÃO E PENA DE MORTE

                                                                                                       (Aster Matos)

Eu, porém, vos digo: Amai a vossos inimigos, bendizei os que vos maldizem, fazei bem aos que vos odeiam, e orai pelos que vos maltratam e vos perseguem; para que sejais filhos do vosso Pai que está nos céus;

Mateus 5:44

Às vezes, ferindo aqueles que nos ofendem, a pretexto de servirmos à verdade, quase sempre faltamos ao nosso dever de amor. Ao oferecermos empatia, transpondo-nos para o lugar do outro, não perdemos a conexão com a nossa verdade interior. Apenas conseguimos ouvir e sentir as necessidades alheias sem julgamentos, ou pelo menos, com acolhimento. Todos os seres humanos têm as mesmas necessidades básicas. E quando nos conectamos com as necessidades do outro, é incrível como conflitos que pareciam insolúveis começam a se tornar possíveis de transformação e reparo.

A pena de morte não é uma solução razoável às leis de Deus, dessa forma, o Espiritismo não é favorável à pena de morte. A legislação penal brasileira não concebe mais a pena de morte como reparação a crimes cometidos, mas ainda assim, por vezes comemoramos a morte de um irmão que esteve em conflito com a lei.

Se nós, espíritas, aceitarmos a ideia de que a interrupção da vida física seria a melhor forma de educar um Espírito, de certo que não foi compreendido o conceito de imortalidade da alma. Porque interrompendo a vida física de um ser humano que ainda transita em confronto com a legalidade, sabemos que esse espírito voltará, com o grande desafio de se reeducar perante o convívio com essa mesma sociedade que por sua vez, reencontrará esta alma em uma nova oportunidade de reforma pessoal.

Quem se considera o ‘justiceiro de Deus’ não está alinhado às propostas do Cristo. Não queremos dizer que aqueles que voluntariamente praticam infrações penais, não devem ser punidos, mas ressaltar que é um direito de todos que infringem as leis: um julgamento limpo, uma punição equilibrada, e a oportunidade de reparação, com vistas à responsabilização pelas suas ações. Mesmo que a justiça dos homens nos condene, não nos isentamos das leis Divinas gravadas em nossa própria consciência, portanto, sabemos que as consequências não terminarão aqui.

Se a eficácia das preces fosse proporcional à extensão delas, as mais longas deveriam ficar reservadas para os mais culpados, porque mais lhes são elas necessárias do que àqueles que santamente viveram.

O Evangelho Segundo o Espiritismo, Allan Kardec.

Urge que libertemos nossa mente da negatividade acerca do outro, evitando julgamentos. Ermance Dufaux nos lembra no livro ‘Amorosidade’, que quando nos conectamos de uma forma julgadora e desrespeitosa com a parte sombria de alguém, ficamos “desprotegidos” energeticamente e, aquilo que condenamos sistematicamente no outro é assimilado pela nossa conduta. Isso é facilmente explicado, em parte, pela lei de afinidade.

Precisamos aprender a conviver com as pessoas desiguais, sem lançar ódio sobre aqueles que pensam diferente de nós, pois, o contrário disso é sinal de imaturidade. Lembremos que no caminho do progresso moral encontraremos momentos de prova, revestidos destes exercícios de convivência com os desiguais, compreendendo a condição em que o outro está, sem lhe desejar mal.

Além disso, se lembrarmos que ninguém se reeduca sem Amor, imaginemos quem serão os responsáveis por amá-los no futuro?

Quando alimentamos essa nuvem de ódio que ronda na sociedade, estamos reforçando os ciclos mentais doentios, por onde transitam as obsessões de toda espécie. E assim, projetamos pensamentos que encorajam outros a atos semelhantes. Não esqueçamos que as palavras e pensamentos são sementes. E nós devemos ser os desarticuladores dessa energia malsã, e não mais os produtores dela.

A vigilância e a oração nos manterão equilibrados para não nos deixarmos ser influenciados por estas forças. Mas também, devemos explorar novas formas de pensar e reagir a eventos traumáticos, para que nós, enquanto comunidade não fiquemos presos a ciclos de retaliação violentos. De um modo geral, toda violência leva a um trauma, e um trauma não curado, por sua vez, pode dar origem a outro ato violento, e assim, a cada vez menos segurança.

O passado não está morto. Na verdade, nem é passado.

William Faulkner (romancistas)

Emmanuel, nos lembra que os criminosos de ontem somos nós, hoje. E os Espíritos nos ensinam que os criminosos de hoje são tão nosso próximo, como o melhor dos homens. A alma revoltada, portadora de um comportamento humano causador de relevante e intolerável perigo de lesão à sociedade, foi criada como a de cada um de nós, para se aperfeiçoar, crescer e alcançar a plenitude, deixando brilhar a sua própria luz.

Cada um faz o seu caminho e este, assim como nosso semblante, é diferente em cada um de nós. Entretanto, quando o outro é desumanizado, os padrões morais de sacralidade da vida não se aplicam. Logo ganha força uma perigosa análise simplista, com soluções igualmente simplistas: se as pessoas ou grupos ‘malévolos’ são a causa, então a solução é nos separarmos deles, ou seja, de alguma forma nos livrarmos deles, e, para isso, até mesmo matá-los. Assim, quando optamos por esse entendimento, nós é que vivemos encarcerados, entre os muros do nosso egoísmo.

No momento em que a sociedade responde a uma violência de forma violenta, entramos numa engrenagem circular: se a cura dessas feridas no tecido social precisa aguardar uma eclosão de segurança e paz e se o trauma não curado contribui para ciclos violentos, pode haver paz sem cura? Pode haver cura sem paz? A porta de escape nesse caso é o perdão, proveniente de uma escolha nossa, e não prêmio como ato vinculado ao merecimento alheio.

Um homem, como eu, com o seu mal e com o seu bem, com as suas sombras e com as suas luzes, com a sua incomparável riqueza e a sua espantosa miséria. Eis que então nasce, do horror, a compaixão.

Francesco Carnelutti

Por fim, sempre nos cabe orar com amorosidade e fé pelos que hoje ainda insistem em realizar escolhas equivocadas, assistir-lhes o Espírito durante o tempo que ainda haja de passar na Terra, ou fora dela, para que sejam tocados de arrependimento. Quando escolhemos agir de maneiras inovadoras o cérebro forma novas conexões neurais. Em todo caso, para todos nós que ainda temos no nosso íntimo o bem e o mal, o reconhecimento sobre a necessidade de pensar de outras formas abre caminho para o crescimento. Claro, sem esquecer o reconhecimento de assumirmos a responsabilidade pelas nossas escolhas e a inequívoca imposição de acolher as consequências, para em seguida promover a reparação. A mudança começa comigo, com você, conosco.

 

“O mau, o criminoso não é, na realidade, mais do que um Espírito novo e ignorante em que a razão não teve tempo de amadurecer (...). É por isso que as penalidades infligidas deveriam ser estabelecidas de modo a obrigarem o condenado a refletir, a instruir-se, a esclarecer-se, a emendar-se. A sociedade deve corrigir com amor e não com ódio, sem o que se torna criminosa.

(...) O Espírito só está verdadeiramente preparado para a liberdade no dia em que as leis universais, que lhe são externas, se tornem internas e conscientes pelo próprio fato de sua evolução. Nesse dia, terá atingido o ponto moral em que o homem se possui, domina e governa a si mesmo.”

(O Problema do Ser, do Destino e da Dor, Léon Denis)

 


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