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Francisco é atual como a primavera que nos visita a cada ano!

October 4, 2021 23:00 , by Casa do Caminho - 0no comments yet | No one following this article yet.
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Em outubro, celebra-se Francisco de Assis! 


 

 Francisco é atual como a primavera que nos visita a cada ano

                                                                   (Roberto Sabbadini)

Amanheceu! Francisco renasceu na Itália, mas continua florescendo a cada primavera de nossas escolhas. Uma breve lufada de esperança e seu perfume inunda os corações sensíveis ao seu brando sussurrar. Faz tempo que esteve encarnado entre nós, contudo sentimos os ecos de sua encantadora vida nos arquivos sutis do éter. E o que cantava? O que tinha de especial? Por que é relembrado com saudade até hoje? Que poderes possuía?

Francisco, não vês que minha Igreja ameaça ruir, dai pressa em reconstruí-la”. Por três vezes essa frase ressoou dentro dele. Era a voz de Jesus relembrando-o de compromissos assumidos pré-reencarnação. Todos nós estamos aqui com objetivos enobrecedores, um de cunho individual e outro coletivo, ambos contribuindo para a harmonia universal. A ele bastou o refresco da memória a fim de colocar mãos à massa e, com muito trabalho e dedicação, junto àqueles que se dispuseram a ouvir o seu chamado, despertarem nas consciências o grande mandamento do Mestre; “amai-vos uns aos outros como eu vos amei”.

Paulatinamente, descompromissado com os valores da sociedade em que renascera, mas envolvido nos padrões de espiritualidade plena, soube cativar corações e almas na vivência do Evangelho na sua mais pura e simples aplicação – amar indistintamente todos os seres viventes.

Certo dia, defronte de uma árvore onde abrigava um sem-número de passarinhos, elevou a sua voz no diapasão da fraternidade e pregou os exemplos de Jesus a essas aves privilegiadas. Falava com tanto ardor e carinho que nem um pio foi ouvido entre elas, estavam extasiadas nas vibrações emanadas daquele coração especial. Rememorou a todas a sapiência divina que houvera dado asas para sobrevoarem os ares em peripécias mil, um canto para louvarem as belezas de Deus e as árvores que as abrigavam das chuvas e ofereciam um lar para descansarem dos dias intensos em busca do alimento que as sustentassem. Esse olhar que costura as belezas da natureza com sua praticidade agrega todos os seres na unidade divina que nos torna irmãos.

Francisco elevou ao mais alto grau a irmandade entre todos os integrantes do meio ambiente. Com uma ciência transcendente compreendeu a correlação existente do átomo ao arcanjo e fez de suas atitudes uma eterna canção de louvor ao bem. Amou indistintamente e acalmou a ferocidade do lobo de Gubbio[1], salvando toda uma população que vivia em constante conflito com o animal feroz. Que ouçamos a sua voz e abrandemos os instintos animalizados que ainda guardamos em nosso interior. Agindo em vez de reagir colocaremos a razão à frente do ímpeto automatizado de autodefesa. O amor é calmo e paciente.

Noutra oportunidade, o poverello[2] refrescava os seus pés, após uma longa viagem, nas águas de um rio quando os peixinhos atraídos pelo seu magnetismo tocavam-lhe com suavidade sua pele, enquanto isso não perdia a oportunidade de conversar com eles. Esclarecia com toda atenção a importância de suas vidas no equilíbrio das forças naturais, esclarecendo que se cada um cumprir a sua tarefa sem se deter em tomar conta das atitudes alheias, estaríamos no rumo da perfeição. Juntos, cada um em conformidade com suas habilidades contribuímos na obra divina.

Pobre materialmente, conquanto rico de qualidades morais, Francisco adentrava os portais da cidade de Assis em busca de óleo que alimentasse a chama do altar da capelinha de São Damião. Caminhava rumo a uma casa que identificou como a de amigos de seu tempo de juventude abastada, com os quais varava as madrugadas em cantoria festiva. Ao aproximar-se um pouco mais estacou os passos pois que uma sombra de vaidade invadiu-lhe o ser, uma vergonha aprisionada surgiu à tona de sua mente e paralisou as pernas que se mexiam celeremente. Pensou em como iria se apresentar em trajes esfarrapados enquanto se vestia tão garbosamente, noutros tempos. E um temor tomou-o por completo. Parado ficou analisando seus pensamentos, até que um impulso extraordinariamente forte fê-lo avançar intrépido na direção de seus antigos companheiros. Ao bater à porta foi atendido com maneiras discretas pelo interlocutor que o introduziu na sala nobremente enfeitada onde o riso era intenso. Automaticamente todos pararam para ouvir as suas palavras que foram mais ou menos assim; “eu me dirigia até vocês no propósito de pedir ajuda com óleo para manter acesa o oratório da Capela de São Damião, mas envergonhei-me de meu Mestre, de sua pobreza e de sua simplicidade ao perceber que a vaidade ainda fazia morada no meu interior. Todos nós temos um monstro que vive agachado atrás das portas de nossas emoções aguardando o momento propício de saltar à frente de nossas escolhas, toldando-nos o ímpeto singelo e natural de demonstrar as noções de espiritualidade que já conquistamos. Se não vigiarmos a contento, ele tende a dominar-nos impedindo que as nobres virtudes amealhadas com esforço e perseverança nos sirva ao bem viver. Por este motivo que eu me revelo na frente de todos, assumindo minha incapacidade de caminhar sozinho sem a presença do amado Jesus, único capaz de auxiliar-me diante de minhas grandes necessidades. Assim, após revelar minha indecisão e quase renúncia para mendigar um pouco de óleo, eu peço o auxílio a que vim humildemente solicitar”. Todos ficaram impressionados com o seu testemunho e de bom grado encheram o seu embornal com o líquido precioso que haveria de iluminar a lamparina da capela. A luz venceu.

Venha, Francisco, novamente nos ensinar a humildade de reconhecer nossas limitações frente ao tanto que necessitamos aprender e exercitar. Venha, pobrezinho amado, e nos recorde a inadiável tarefa de autoconhecimento para a conquista da paz efetiva. Ainda precisamos de sua presença carinhosa a fim de entendermos os intrincados caminhos que nos levam à edificação do reino de Deus em nossos corações. Carecemos de seus exemplos de fidelidade aos ensinamentos do grande Raboni[3] que ainda teimamos em desconsiderar. Somente através de seu amor inefável conseguiremos romper as barreiras do primitivismo sentimental rumo aos cumes da felicidade suprema. Sê conosco e prometemos jamais abandoná-lo novamente. Será um amor fecundo que gerará inúmeros frutos.

No ápice de sua carreira amorosa entre nós, encontrou no Monte Alverne o mais sagrado laurel passível de aquisição aqui na Terra. Os estigmas que marcaram a crucificação do Mestre significaram a chancela do trabalho fecundo que Francisco desenvolvera pelo seu apostolado. É a própria crucificação em vida, carregando as dores daquele que escolheu o amor e a pobreza como companhias indispensáveis na sua trajetória. Quem muito ama acaba padecendo pelo amor oferecido ao outro.

Durante cerca de dois anos andou Francisco pelejando com as febres causadas pelas feridas provenientes das chagas abertas no corpo de carne. Entendemos que através delas a sua luz penetrava em suas entranhas e reverberava automaticamente naqueles que dele se aproximava. Tinha um cuidado especial para que ninguém visse, nem mesmo o seu secretário, o frei Leão, que de Leão só tinha o nome, pois era manso como um cordeirinho.

Nesse imenso cuidado que Francisco observava diante de sua mediunidade, esclarecia aos seus frades menores que é pobre aquele que não tem mistérios com o seu Deus, ou seja, o contato com a espiritualidade deve sempre ser observada com denodo, simplicidade e retraimento. Após absorver os ensinamentos provindos do alto, por misericórdia divina alguma réstia de luz há de ser compartilhada com os demais. Isso tudo para que não perdessem a noção de que ele era apenas um simplório ser que obedecia ao comando de seu Mestre, cônscio de que não era senão um mero intermediário de seu amor.

Assim permaneceu até ao fim de sua jornada entre nós. Quando recebeu a notícia de seu próximo desenlace, através da boca do médico de nome João, sorriu alegremente abrindo os braços e dizendo; “seja bem-vinda minha irmã morte”. Imediatamente convocou os irmãos cantores e entoou hosanas de agradecimento e louvor por todo o tempo que estivera jungido à tarefa de relembrar a máxima de Jesus, o seu evangelho inolvidável de amor ao semelhante e respeito às leis divinas insculpidas em nossas consciências.

Chegado que foi às terras da querida Porciúncula[4], despiu-se por completo e colocado na terra nu como havia estado em seu nascimento e no rompimento com o mundo social na praça de Santa Maria Maior[5], diante de seus pais e do Bispo Don Guido, fez uma prece sentida de agradecimento pelos elementos da natureza aos quais foi eterno amante. Destacou em especial um louvor ao irmão sol, do qual todos dependemos para sobreviver e à irmã Terra que lhe emprestou a indumentária carnal durante os quarenta e quatro anos que permaneceu vivo.

Seu corpo esgotou-se, mas seu espírito humanitário e agregador ainda permanece nos acompanhando todas as vezes que auxiliamos um desses pequeninos que solicitam amparo, carinho e amor fraternal.

 

[1] Gubbio é uma cidade italiana da região da Úmbriaprovíncia de Perugia

[2] Referência àquele que é dotado de pouco ou nenhum recurso material, neste caso Francisco.

[3] Na bíblia significa mestre. Jesus era chamado assim.

[4] É uma pequena igreja fora de Assis, na fracção comunal de Santa Maria degli Angeli.

[5] Praça onde ocorreu a conhecida entrega de suas roupas aos pais, seguindo um novo caminho em sua vida.

 

"Ditoso aquele que, ultrapassando a sua humanidade, ama com amplo amor os seus irmãos em sofrimento! Ditoso aquele que ama, pois não conhece a miséria da alma, nem a do corpo. Tem ligeiros os pés e vive como que transportado, fora de si mesmo."

(O Evangelho segundo o Espiritismo, Allan Kardec)


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