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No dia da desencarnação,10 de abril, Pierre-Gaëtan nos é apresentado por Adilton Pugliese

April 9, 2021 19:20 , by Redação CDC - 0no comments yet | No one following this article yet.
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No dia da desencarnação,10 de abril, Pierre-Gaëtan nos é apresentado por Adilton Pugliese

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Em 10 de abril Pierre-Gaëtan desencarnou: conheça um pouco da sua conturbada trajetória.

 

PIERRE-GAËTAN LEYMARIE  E O PROCESSO DOS ESPÍRITAS

                                                         Adilton Pugliese

 

Em 1857, um discípulo fiel de Jesus consolidaria o cumprimento de Sua promessa da vinda do Consolador, coordenando os ditados transmitidos pelos Espíritos e oferecendo à humanidade a Doutrina Espirita. Seu nome: Hippolyte Léon Denizard Rivail, que assinaria as obras da Codificação Espírita com o pseudônimo de Allan Kardec.A ação dos Espíritos reveladores do Espiritismo seria facilitada e possibilitada pelo exercício da mediunidade, naquele alvorecer de uma Nova Era, por parte das meninas médiuns, pucelles modernas: Caroline e Julie Baudin, Ermance Dufaux, Aline Carlotti, Rute Japhet e por aquelas que deram início à “fagulha da renovação”, as irmãs Fox, em Hydesville, em 1848, nos Estados Unidos.

Intolerâncias e perseguições, contudo, foram mobilizadas contra a nova doutrina e seus adeptos, ressuscitando antigos atos inquisitoriais do passado. Em 12 de junho de 1856, em momento especialíssimo na vida do professor Rivail, o Espírito de Verdade adverte-o: “[...]a missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos. Previno-te de que a tua é rude, visto que se trata de abalar e transformar o mundo inteiro. [...] Suscitarás contra ti ódios terríveis; inimigos obstinados se conjurarão para a tua perda; serás alvo da malevolência, da calúnia e da traição mesma dos que te parecerão os mais dedicados [...]”.

A História tem demonstrado que as perseguições da intolerância atingem não apenas os líderes de movimentos libertários que promovem a igualdade, a liberdade e a fraternidade, mas, igualmente, os seus liderados e simpatizantes. Exemplificamos com o movimento libertador do Cristianismo, da vida de Jesus e dos apóstolos, de João Batista, Estevão e Paulo de Tarso. Portanto, com o Espiritismo, que revive o código ético do Rabi da Galileia não poderia ser diferente.

Henry Sausse (1851-1928), biógrafo do Codificador do Espiritismo, refere-se aos comentários feitos por íntimo amigo de Allan Kardec, Pierre-Gaëtan Leymarie (1827-1901), declarando “[...] que as cartas anônimas, as traições, os insultos e a difamação sistemática perseguiram o obreiro [Kardec] e nele abririam, moralmente, feridas incuráveis [...]”.

Após a desencarnação de Allan Kardec, em 31 de março de 1869, em Paris, mobilizaram-se os seus sucessores para manter acesa a chama do ideal do Espiritismo, de suas propostas morais transformadoras do caráter do ser humano e da construção do Reino de Deus e do homem de bem na Terra. Todos se movimentariam em torno de novas diretrizes e metas de trabalho, reunindo-se no núcleo de divulgação e de coordenação administrativa: a Sociedade Parisiense de Estudos Espíritas (Spee), fundada por Allan Kardec em abril de 1858.Novos dirigentes assumem a gestão da Causa. O Sr. Malet, a presidência da Spee, substituindo Allan Kardec.  Em agosto de 1869 a Revista Espírita informa a constituição da Sociedade Anônima sem fins lucrativos e de capital variável da Caixa Geral e Central do Espiritismo, consoante ato de 3 de julho de 1869, idealizada pela Sra. Allan Kardec, e formada com o concurso de mais seis outros espíritas. No ato constitutivo, a descrição do objetivo da nova Sociedade: “[...] Tornar conhecido o Espiritismo por todos os meios autorizados pelas leis [...]”.

Quando Allan Kardec iniciou a publicação da Revista Espírita e de suas obras e deu começo às suas sessões de estudos e experimentações passou a contar, entre os seus mais ardentes discípulos, com a participação de três jovens, cujos destinos seriam dessemelhantes, mas iguais no devotamento, na fidelidade e nos serviços prestados à Doutrina: Camille Flammarion, Victorien Sardou e Pierre-Gaëtan Leymarie.

Pierre-Gaëtan Leymarie nasceu em Tulle, França, em 2 de maio de 1827. Ainda jovem, percebendo as dificuldades financeiras da família, procurando não sobrecarregá-la, parou seus estudos e mudou-se para Paris, em busca de trabalho. Seguidor das ideias republicanas, quando ocorreu o golpe de Estado de 1851, foi constrangido ao exílio. Proclamada a anistia, voltou à França. Casou-se com Marina Duclos, vinte anos mais jovem do que ele. Ela lhe foi a companheira enérgica e devotada em todos os momentos. Ele era um apaixonado pelos livros e lia sobre tudo, de política a assuntos sociais, científicos, religiosos. O encontro com a Doutrina Espirita e os fenômenos vieram ao encontro de seu coração, não conseguindo ficar indiferente. Logo se colocou a serviço do mestre lionês, Allan Kardec, que iniciava a publicação da Revue Spirite e de suas obras, tornando-se um dos seus mais ardentes discípulos.

Deve-se a Leymarie a tradução da obra kardequiana para vários idiomas. Ele realizou, ainda, viagens à Bélgica, Espanha e Itália, difundindo a Doutrina dos Espíritos. Participou, como delegado, do I Congresso de Bruxelas. Em 1888, foi eleito para uma das presidências do Congresso Espírita de Barcelona. Nessa ocasião, foi lida a comovente moção de gratidão enviada da prisão de Tarragona, por um   grupo de condenados a trabalhos forçados, convertidos à fé espírita. Em 1889, Leymarie organizou o I Congresso Espírita da França. Após sua desencarnação, em Paris, no dia 10 de abril de 1901, há 120 anos, portanto, sua esposa o sucedeu nas tarefas e depois da morte dela, o filho Paul Leymarie deu continuidade ao labor. Suas cinzas repousam sob um dólmen no cemitério Père-Lachaise  com a inscrição Morrer é deixar a sombra para entrar na claridade.

Dois anos depois da desencarnação de Allan Kardec, Leymarie foi nomeado administrador da Sociedade Anônima do Espiritismo e, ao mesmo tempo, redator-chefe e diretor da Revue Spirite, mantendo-se fiel à divisa do mestre de Lyon: “Fora da caridade não há salvação” e “procurou subtrair de todas as discussões os atritos pessoais e todas as questões irritantes”. Os inimigos da Causa do Cristo, porém, em todos os tempos, sempre estiveram à espreita, já que não desejam a concretização do seu ideal e meta fundamental do seu apostolado, que é a implantação do Reino de Deus no orbe terrestre. 

Allan Kardec, ao escrever na edição da Revue Spirite, de dezembro de 1863, acerca dos seis períodos da trajetória do Espiritismo, destaca o Período da Luta, que seria caracterizado por uma verdadeira cruzada dirigida contra a nova doutrina, iniciada desde o seu advento pelos “sarcasmos da incredulidade” e que teriam o seu “batismo de fogo” com o auto-de-fé em Barcelona, de 1861, e, desde então, os ataques assumiriam um caráter de violência inaudita: [...] sermões furibundos, pastorais, anátemas, excomunhões, perseguições individuais, livros, brochuras, artigos de jornais, onde nada foi poupado, nem mesmo a calúnia”. 

Realmente, na data célebre de 9 de outubro de 1861, os opositores tentariam um “golpe de misericórdia” no Espiritismo, insuflando mentes presas ao pensamento medieval a queimarem em praça pública, em Barcelona, na Espanha, cerca de trezentos “volumes e brochuras sobre o Espiritismo”, muitos da autoria de Allan Kardec e por ele expedidos àquele país, ocorrendo, então, um auto-de-fé sob os auspícios do bispo Dom Antônio Palau y Termens (1806-1862). As cinzas das páginas imortais, contudo, ao invés de se diluírem, espalhar-se-iam, beneficiando o progresso do Espiritismo na Espanha, sobretudo por conterem ideias libertadoras do homem do jugo do materialismo.

Em 1869 a nova equipe que se organiza para dar continuidade ao esforço excepcional de Allan Kardec passa a ser o alvo de idealismos retrógrados, que arquitetam diabólico plano para neutralizar os fatos espíritas, a mediunidade e o próprio Espiritismo...

Enfatiza Hermínio Miranda (1920-2013), na Apresentação - breve retrospecto que escreveu para a primeira edição, no Brasil, de Procès des Spirites, de autoria de Madame P.-G. Leymarie (?-1904), publicada pela FEB, em 1975: “Logo que Kardec partiu para a espiritualidade, exacerbaram-se os ânimos das trevas”. “Era preciso agir rápido, atacar vários pontos, desmoralizar, para demolir, a Doutrina que se implantava com pujança inesperada”. “E foi assim” – continua, “que o Espiritismo foi levado às barras dos Tribunais franceses, em 1875, por causa de uma série de fotografias mediúnicas”.

O resumo em português de Procès dês Spirites, de autoria da esposa de Leymarie, percorre 94 páginas (30 a 123), relatando o processo judicial que foi considerado, em matéria publicada em Reformador de dezembro de 1975, cem anos depois, portanto, do infeliz episódio, “algo tenebroso, autêntica peça inquisitorial, só concebível de ter existido nos distantes tempos da Idade Média”.

Conforme os fatos narrados na citada obra, no início da década de 70 do século XIX surgiram, em Paris, as chamadas “fotografias espíritas”, revelando seres desencarnados junto a pessoas encarnadas. A Revue Spirite, naquele momento sob a gerência de Pierre-Gaëtan Leymarie, interessa-se pelo assunto e passa a manter relacionamento com dois fotógrafos, um deles francês, de 34 anos, Édouard Buguet, considerado portador de excepcional mediunidade e o americano Alfred-Henri Firman, de 23 anos. 

“Convencido da autenticidade dos recursos mediúnicos de Buguet, Leymarie publicou na Revue de janeiro de 1874, sob o título La Photographie Spirite à Paris, um relato detalhado de sua posição no caso”. Inúmeros e notáveis experimentos foram feitos pelos dois fotógrafos com várias pessoas,  inclusive com a participação da viúva Allan Kardec, cujos procedimentos eram meticulosamente acompanhados por Leymarie. “Nenhuma fraude pôde ser detectada nessas experiências, nenhum artifício, nenhum recurso desonesto, dado que o fotógrafo [Buguet] estava ali, à vista de todos, e se prestava docilmente aos controles que julgassem necessário estabelecer”. “Camille Flammarion, cuja capacidade científica ninguém poderia por em dúvida, igualmente experimentou com Buguet e nada encontrou para incriminar o fotógrafo de fraude”.

Contudo, as imagens de desencarnados em fotos desencadeariam rumoroso processo judicial. O fato é denunciado como “um caso de polícia”. Buguet, pressionado, confessa à autoridade policial estar praticando fraude e usando de trapaças para compor os retratos dos Espíritos. Inicia-se, a partir daí, a montagem de um palco, ligando-se as alegadas fraudes de Buguet a Pierre-Gaëtan Leymarie, acusado de ter conhecimento dos fatos e, consequentemente, ao Espiritismo, visando a sua desmoralização.  Levada a denúncia ao Tribunal, a primeira sessão é aberta em 16 de junho de 1875, pelo juiz Millet, que ordena a convocação de 55 testemunhas, sendo 27 de acusação e 28 de defesa.

Declara Zeus Wantuil, em “nota do tradutor” à biografia de Leymarie, de J. Malgras: “Em consequência de depoimentos falsos, entre os quais o do próprio acusado principal, o fotógrafo Buguet, foram todos condenados pela justiça humana, o que os fez recorrer para instâncias superiores”. Leymarie, porém, é condenado a um ano de prisão celular e libertado em janeiro de 1877, retomando os seus afazeres habituais. “Que Buguet era médium e fotografias mediúnicas verdadeiras foram obtidas por ele, não há dúvida, como o atestaram muitas dezenas de pessoas, de diferentes países europeus. Mas o médium, desconhecedor dos princípios da Doutrina Espírita, e, ainda por cima, ganancioso, serviu-se várias vezes, quando nada conseguia com a sua mediunidade, da fraude, como ele próprio confessara”. “As trevas, por instantes, desejaram empanar o Espiritismo, mas em vão”.*

Revivendo essas históricas recordações em torno de dramáticos instantes do Espiritismo, granítico, porém, em sua perenidade, por ser promessa do amor de Jesus, lembremos a afirmação dos Espíritos a Allan Kardec, nas primeiras alvoradas da Codificação: “[O Espiritismo] se tornará crença geral e marcará nova era na história da humanidade [...]. Terá, no entanto, que sustentar grandes lutas [...]”.

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 KARDEC, Allan. Obras Póstumas. 1.ed.FEB, 2009, tradução de Evandro Noleto Bezerra, p.368.

 WANTUIL, Zeus. THIESEN, Francisco. Allan Kardec, Pesquisa Biobibliográfica e Ensaios de Interpretação – Volume III, 1.ed.FEB, 1980, p. 131. 

 KARDEC, Allan. Revista Espírita de maio de 1869,1.ed.FEB, tradução de Evandro Noleto Bezerra, 2005, p.324, 326 e 328.

 LEYMARIE, Madame P.-G., Procès des Spirites, Prefácio:Pierre-GaëtanLeymarie, 2ª. ed. (1ª no Brasil), FEB, 1976, p.22. 

http://www.mundoespirita.com.br/?materia=pierre-gaetan-leymarie – acesso 01.03.2021.

6  IDEM, Idem.

LEYMARIE, Madame P.-G., Procès des Spirites, Prefácio: Pierre-Gaëtan Leymarie, 2ª. ed. (1ª no Brasil), FEB, 1976, p.22/3

8  LEYMARIE, Madame P.-G., Procès des Spirites, 2ª. ed. (1ª no Brasil), FEB, 1976, apresentação (resumo em português) de Hermínio C. Miranda, p.31 e 32.

 Sobre “fotografias espíritas” vide DELANNE, Gabriel, O Espiritismo Perante a Ciência, editora FEB, 5ª parte, cap.III.

10 LEYMARIE, Madame P.-G., Procès des Spirites, 2ª. ed. (1ª no Brasil), FEB, 1976, apresentação (resumo em português) de Hermínio C. Miranda, p.33. 

11 IDEM, Ibidem, p. 35 e 36.

12 IDEM, Ibidem, p. 37, 38 e 39.

13 LEYMARIE, Madame P.-G., Procès des Spirites, Prefácio:Pierre-Gaëtan Leymarie, 2ª. ed. (1ª no Brasil), FEB, 1976, p. 25/6.

14 KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos, edição histórica, FEB, tradução de Guillon Ribeiro, pergunta 798.

 

"Desde que a Ciência sai da observação material dos fatos, e trata de os apreciar e explicar, o campo está aberto às conjeturas. Cada um arquiteta o seu sistemazinho, disposto a sustentá-lo com fervor, para fazê-lo prevalecer.

Não vemos todos os dias as mais opostas opiniões serem alternadamente preconizadas e rejeitadas, ora repelidas como erros absurdos, para logo depois aparecerem proclamadas como verdades incontestáveis?

Os fatos, eis o verdadeiro critério dos nossos juízos, o argumento sem réplica. Na ausência dos fatos, a dúvida é a opinião do homem sensato".

(Allan Kardec, O Livro dos Espíritos)


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