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Quando a angústia toma conta de nós, o tempo adquire outra forma de medida

September 16, 2019 18:19 , by Redação CDC - 0no comments yet | No one following this article yet.
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2 angustia

 

ANGÚSTIA

Uósnei Moncorvo

 

A sensação de amargura a respeito da vida, a vaga sensação de inutilidade, de falta de propósito, ou ainda a falta de capacidade de vislumbrar outras possibilidades, para além da realidade do momento, é humana.

Emmanuel, através das mãos de nosso Chico, assim expressa-se:

Entrastes na hora do desalento, como se te avizinhasses de um pesadelo. Indefinível suplício moral te impele ao abatimento, mágoas antigas surgem à tona. Sentes-te a feição do viajor, cuja sede esgotaram as derradeiras fontes do caminho. Experimentas o coração no peito, qual pássaro fatigado, ao sacudir, em vão, as grades do cárcere.” (Livro da Esperança. Mensagem Na Hora da Tristeza)

 François de Gèneve, espírito, descreve condições bem parecidas, como forma de percepção da vida presente, diante da reminiscência de uma vida espiritual em melhores condições (Evangelho Segundo o Espiritismo, Bem Aventurados os Aflitos, cap. V, A Melancolia). Tudo por conta da falta.

Diversos dos grandes nomes da arte, deixaram registrados em suas telas, sentimentos densos, como Edward Munch na obra O Grito. Nas telas, ele compõe uma série, expressando em tons intensos e contornos peculiarmente definidos, estados emocionais perturbadores. Por vezes estes grandes mestres tem retratado diretamente imagens dolorosas. Em outras, tem realizado expressões de rara beleza, tais como os girassóis de Van Gogh, acometido de diversos quadros psicopatológicos e vivências desastrosas. Nesse processo criativo, deram significados simbólicos, as suas emoções.

Diante da incerteza e da dúvida, o universo emocional da criatura se esfacela.

A tristeza, que surge por motivos diversos, não encontrando forma de expressão para adquirir sentido, manifesta-se como sintoma, adoecimento, ou mais drasticamente em transtorno ou vício.

Em última instância na morte premeditada.

Emmanuel continua a mensagem:

Ainda assim, não permitas que a ansiedade te lance a tristeza inútil.”

Ansiedade. Nomeada assim por tratar de coisas que ainda não aconteceram. Suposições sobre estados atuais, que parecem sem solução no formato de antecipações distantes dos fatos.

Confusão entre a realidade (dificuldade, atualidade) e a fantasia (sofrimento por antecipação).

François continua:

E se, no curso dessa prova, no cumprimento de vossa tarefa, virdes tombarem sobre vós os cuidados, as inquietações e os pesares, sede fortes e corajosos para os suportar. Enfrentai-os decisivamente, pois são de curta duração...

Os estados mórbidos de tristeza, os sentimentos e situações não compreendidos, não expressos – são passageiros.

Quando a tristeza, a melancolia e a angústia tomam conta de nós, o tempo adquire outra forma de medida. Precisamos nos deter nas percepções reais, lendo-as através da razão, enxugando o volume de conteúdos puramente emocionais sobre os fatos.

É necessário força. Coragem. Escolha.

Continua no Evangelho o nobre amigo:

Acreditai no que vos digo e resisti com energia a essas impressões que vos enfraquecem a vontade.”

Nova chave.

A vontade é uma potência da alma. Detalhadamente estudada por Léon Denis em O Problema do Ser, do Destino e da Dor. Residente nas profundezas do Ser. Recurso do Grande Eu. Vetor de ignição de todos os processos, se direcionada de maneira consciente e construtiva.

Além de todos esses elementos sobre recursos pessoais, não podemos deixar de perceber as fontes de ajuda ao redor. Encarnados e desencarnados.

Humildade para solicitar ajuda.

Abertura para receber amparo.

Mesmo quando estamos mergulhados na aparente treva completa, o amparo lá está, nos custando apenas a iniciativa de buscar auxílio para a modificação.

Por ora encerraremos nossa argumentação, lhe pedindo amigo leitor que siga considerando o conto do escritor Humberto de Campos espírito, em Cartas e Crônicas, ainda como Irmão X, que se segue, para interiorizar a idéia desse auxílio presente e do esforço individual em busca do mesmo.

“Rolava a conversação em torno de proteção espiritual, quando Jonaquim, respeitado mentor de comunicabilidades cristãs, narrou com a voz aquecida de bondade e sabedoria:

- Ouvi de um instrutor amigo que Mardônio Tércio, convertido ao Cristianismo, nos primeiros dias do Evangelho em Roma, se fêz um 
discípulo tão valioso e humilde do Senhor que, para logo, teve o seu nome abençoado nos Céus. Patrício de enorme fortuna, desde muito cedo abandonado pela mulher que demandara Cartago para uma vida independente, Mardônio, assim que penetrou a essência da doutrina do Cristo, dividiu todos os bens com o filho único, Marcos Lício, e entregou-se à caridade e à renovação. Instrumento fiel do bem, abria os ouvidos a todos os apelos edificantes, fossem dos mensageiros de Jesus que lhe solicitavam a execução de tarefas benemerentes ou dos irmãos encarnados nos mais baixos degraus da penúria. Fizera-se espontaneamente o apoio das viúvas desamparadas e o tutor afetuoso dos órfãos. Além, disso, mantinha horários, cada dia, para o serviço de assistência direta aos doentes e sofredores, administrando-lhes alimento e socorro com as próprias mãos

Ao contrário do pai, o jovem Marcos se chafurdou em absurda viciação. Aos trinta de idade, parecia um flagelo ambulante. Distinguindo-se entre as 
forças do ouro e do poder, não vacilava em abusar das regalias que desfrutava para manter-se no banditismo dourado que os privilégios sociais tanta vez conservam impune.

Dois caminhos tão diferentes produziram, em consequência, duas posições diametralmente opostas no Mundo Espiritual. Sobrevindo a 
morte, Mardônio cresceu em tamanho merecimento que foi elevado à esfera do Cristo, acessível aos servidores que pudessem colaborar com ele, o Senhor, nos dias mais torturados do Evangelho nascente. Marcos, porém, arrojou-se a escuro antro das zonas inferiores, onde, conquanto afeito à revolta e à perversão, qual se trouxesse a consciência revestida em grossa carapaça de insensibilidade.

O genitor, convertido em 
apóstolo da abnegação, visitava o filho, no vale tenebroso a que se chumbava, sem que o filho, cego de espírito, lhe assinalasse a presença; e tanto se condoeu daquele com quem partilhara o afeto e o sangue que, certo feita, num rasgo de apaixonado amor pelo rebento querido, suplicou ao Senhor permissão para levá-lo consigo para as Alturas, a fim de assisti-lo, de mais perto.

Jesus sorriu compreensivo e aquiesceu, diante da ternura ingênua do devotado coopera
dor, e, antes que amigos experientes lhe administrassem avisos, lá se foi Mardônio para a cava sombria, onde o filho se embriagava de loucura e ilusão... Renteando com Marcos, positivamente distante de qualquer noção de responsabilidade, aplicou-lhe passemagnéticos, anestesiou-lhe os sentidos e, tão logo o beneficiado cedeu ao repouso, colocou-o enternecidamente nos ombros, à feição de carga preciosa, e, com imensos cuidados, transportou-o para os Céus...

Instalado num dos sítios mais singelos do Plano Superior, o recém-chegado, porém, usufruía luz mais radiante que a do dias terrestres, e, tão depressa acordou sob o encantamento paternal, viu-se coberto de 
fluidos repugnantes que lhe davam a impressão de ser um doente empastado de lama enquistada. Marcos se confrontou com os circunstantes, que se moviam em corpos tênues e luminosos, e passou a gritar impropérios e insultos. Ao pai que intentou reconfortá-lo, procurou esbofetear sem misericórdia, afirmando que não pedira e nem desejara a mudança. Exortado a respeitar o nome e a casa do Senhor, injuriou o ambiente com palavras e idéias de zombaria e ingratidão. Parecia uma fera desatrelada, buscando enlamear um fonte de luz. Interferiram amigos e o rebelado caiu de novo em prostração, sob hipnose benéfica...

Jonaquim fêz novo intervalo, e, porque se interrompera em apontamento culminante da historia, um dos companheiros interrompeu:

- E daí? Mardônio se viu coibido de amparar o filho a quem amava?

O instrutor explicou:

- Sim, meus amigos, Mardônio acabou compreendendo que nem Deus violenta filho algum, em nome do 
bem, e que o bem jamais foge à paciência, a fim de ajudar... Por isso, reconduziu Marcos ao antro de onde o arrancara e, sem nada perder em ternura e esperança, até que o filho quisesse ou pudesse de lá sair para novos passos no caminho da evolução, o ex-patrício, por noventa e dois anos consecutivos, desceu diariamente ao vale das trevas, oferecendo ao filho, de cada vez, a bênção de uma prece, uma frase esclarecedora e um naco de pão.

- Mas, isso não é o mesmo que acentuar a impraticabilidade do socorro? – aventou um dos presentes. – Não seria mais 
justo relegar o necessitado ao próprio destino para que ele mesmo cogitasse de si?

Jonaquim sorriu expressivamente e rematou:

- Não temos o direito de pôr em dúvida o poder e a efi
ciência da lei de auxílio. A renovação conseguida por noventa e dois anos de devotamento talvez custasse, sem eles, noventa e dois séculos. O amor, para auxiliar, aprende a repetir.

 

 



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